proa e vela

cada suspiro é uma remada

quero decorar cada milímetro da sua pele
em minha memória tátil,
e como se fosse fácil
te ler em braile.

me alimentar do gosto doce das tuas costas
da malícia em tua boca
pra que você sempre me ouça
perder os sentidos.

Se eu segurar teu rosto e me deixar hipnotizar vendo o reflexo em seus olhos
você me espera?
E se eu sentir o cheiro do teu pescoço e prender tua cabeça entre minhas pernas
você esquece ela?
Se eu disser que não penso em você nem um minuto
você fica mais um pouco?

esse quase amor ainda te deixa louco, ela disse.

esse quase amor ainda me deixa louco.

Sofro com a antecipação da tua ida. Com tua mão na porta, os gatos te olhando como quem pede comida. Você vai virar pra trás e me encarar como se eu fosse transparente, o olhar perdido admirando tudo o que poderíamos ter sido e não fomos, nunca seremos. Serei aquela mulher com quem você passou uns bons anos, às vezes nem tão bons assim, até encontrar a outra que será o amor da sua vida e você levará para o altar. Quando ela dormir com a cabeça em teu peito você se lembrará das músicas que ouvíamos juntos enquanto ríamos das diferenças estúpidas. Lembrará de quando tua mão na minha era uma promessa de uma vida e um futuro, uma promessa velada e silenciosa do amor que não acabaria nunca. Você se lembrará dos meus beijos, e enquanto sente o cheiro dela sentirá a minha falta por um segundo. E depois passa. Passa como nosso amor corriqueiro de todas as manhãs nos beijos de bom dia, passa como um vagão de metrô cheio demais que faz com que você espere o próximo. E a vida segue, a gente se joga de cabeça em outros vagões e outros amores. Meus domingos sem você nunca mais serão os mesmos – e, mesmo hoje, com tua ausência intercalada, eu não odeio domingos como odiarei nesses dias futuros. Te procurarei no vazio da cama que um dia terá sido nossa e então será minha, como a mesa da sala e a televisão que cisma em piscar a cada hora.  Procurarei teu perfume nos travesseiros, uma camiseta antiga que você tenha deixado pra trás. Dormirei com ela até que todo o seu cheiro tenha esvaecido e em toda casa reste somente eu. Metade morta, metade ainda tua. Essa dor antecipada por causa de um futuro que ainda não aconteceu me navega adiante em meu rio de sentimento. Quero te amar todos os dias como se fosse o último. Como um canceroso que se descobre doente e percebe que a mais simples tarefa como ir ao mercado jamais será a mesma. Vê magia em cada caixa demorado e promoção de patê. Talvez eu tenha descoberto o segredo do amor intenso e saiba diferenciar o sentimento verdadeiro de uma necessidade qualquer. Amar de verdade é fantasiar o abandono, pra só então poder afirmar com certeza as três palavras que saem de nossas bocas a todo segundo e moram em nossos dedos como moedas no bolso do cobrador.

Eu te amo, eu te amo, eu te amo.

Você me arrancou a poesia e os sorrisos

Você me arrancou a poesia e os sorrisos da manhã.
Dos pés entrelaçados eu fugia
pois sua presença forçada era um conta-gotas
pingando veneno no meu café.

Silenciou todas as palavras, complicadíssimas palavras,
que demorei tanto pra aprender. 
As letras das músicas e aquilo que te falei
de tudo o que eu queria ser e não fui.

Me disse “não sinto isso quando estou contigo”
e foi embora sorrindo como uma tarde qualquer.

Você se entregou pra vida, desistindo da nossa
sem pensar na bossa que amar sempre foi.
Se perdeu sem ao menos me procurar,
uma cerveja, um jantar, 
sua mão no meu seio, meu doce receio, 
e te ouvir respirar.

Meu amor, eu morro por dentro
e durmo no relento do que sobrou de nós dois.
Nossas melodias sempre desconexas
são apenas migalhas de tudo que restou.

Não existe mais um só. Apenas os dois.
Solitários.
Sem rumo, sem brigas.
Silêncio.
Sem beijos, sem nada.