proa e vela

cada suspiro é uma remada

Classificados.

Procura-se alguém que queira ver o mar.

Que goste de rede,  enroscar os pés, ficar em silêncio. Que entenda a imensidão da mente e do oceano. Que sinta o arrepio no estômago, sem teorias ou problemáticas. Que compreenda o infinito e o eterno enquanto dure.

Procura-se alguém que dure.

Que coloque comigo o pé na estrada sem intenções de voltar.  Que me tire da realidade e me faça esquecer de qualquer besteira. Que me deixe perdida e me distraia da lista de supermercado. Que queira mais e pense menos. Que tenha gosto de fruta, que me faça sorrir sem motivo e rir para o nada. Alguém que não consiga tirar as mãos de mim nem um segundo.

Procura-se alguém por um segundo.

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História de um amor (ou ‘Como ele nasceu, viveu torto e morreu’)

Só te quero se me quiser como eu sou.
Só te quero se me quiser como eu.
Só te quero se me quiser, como?
Só te quero se me quiser.

Só te quero.

Sofro com a antecipação da tua ida. Com tua mão na porta, os gatos te olhando como quem pede comida. Você vai virar pra trás e me encarar como se eu fosse transparente, o olhar perdido admirando tudo o que poderíamos ter sido e não fomos, nunca seremos. Serei aquela mulher com quem você passou uns bons anos, às vezes nem tão bons assim, até encontrar a outra que será o amor da sua vida e você levará para o altar. Quando ela dormir com a cabeça em teu peito você se lembrará das músicas que ouvíamos juntos enquanto ríamos das diferenças estúpidas. Lembrará de quando tua mão na minha era uma promessa de uma vida e um futuro, uma promessa velada e silenciosa do amor que não acabaria nunca. Você se lembrará dos meus beijos, e enquanto sente o cheiro dela sentirá a minha falta por um segundo. E depois passa. Passa como nosso amor corriqueiro de todas as manhãs nos beijos de bom dia, passa como um vagão de metrô cheio demais que faz com que você espere o próximo. E a vida segue, a gente se joga de cabeça em outros vagões e outros amores. Meus domingos sem você nunca mais serão os mesmos – e, mesmo hoje, com tua ausência intercalada, eu não odeio domingos como odiarei nesses dias futuros. Te procurarei no vazio da cama que um dia terá sido nossa e então será minha, como a mesa da sala e a televisão que cisma em piscar a cada hora.  Procurarei teu perfume nos travesseiros, uma camiseta antiga que você tenha deixado pra trás. Dormirei com ela até que todo o seu cheiro tenha esvaecido e em toda casa reste somente eu. Metade morta, metade ainda tua. Essa dor antecipada por causa de um futuro que ainda não aconteceu me navega adiante em meu rio de sentimento. Quero te amar todos os dias como se fosse o último. Como um canceroso que se descobre doente e percebe que a mais simples tarefa como ir ao mercado jamais será a mesma. Vê magia em cada caixa demorado e promoção de patê. Talvez eu tenha descoberto o segredo do amor intenso e saiba diferenciar o sentimento verdadeiro de uma necessidade qualquer. Amar de verdade é fantasiar o abandono, pra só então poder afirmar com certeza as três palavras que saem de nossas bocas a todo segundo e moram em nossos dedos como moedas no bolso do cobrador.

Eu te amo, eu te amo, eu te amo.

Fuga

O garçom serviu mais uma dose como se estivesse fazendo uma caridade. Ela virou de uma vez só pra sentir o efeito volátil do álcool mais rapidamente em seu sangue. Pensava que de todas as combinações de hidrogênio e carbono, o etanol era o mais confortante filho da tabela periódica. E aí se transportou pra uma época em que bastava sentar na rede, chupando o pedaço de cana-de-açúcar cortado pelo avô, sentindo a brisa quente no rosto enquanto observava os micos que vinham roubar fruta no quintal. Esse era seu paraíso. Ali, ninguém se importava com seu silêncio e sua timidez não era um defeito, apenas um charme. A verdade é que não estava mais naquela chácara a beira-mar. O mundo era, em partes, como o oceano – gigante, amedrontador. Com uma diferença: pensar em sua infinidade nunca lhe traria paz. 

 

(Esse texto foi produzido em um exercício do curso Go, Writers em São Paulo, setembro de 2013)

Você me arrancou a poesia e os sorrisos

Você me arrancou a poesia e os sorrisos da manhã.
Dos pés entrelaçados eu fugia
pois sua presença forçada era um conta-gotas
pingando veneno no meu café.

Silenciou todas as palavras, complicadíssimas palavras,
que demorei tanto pra aprender. 
As letras das músicas e aquilo que te falei
de tudo o que eu queria ser e não fui.

Me disse “não sinto isso quando estou contigo”
e foi embora sorrindo como uma tarde qualquer.

Você se entregou pra vida, desistindo da nossa
sem pensar na bossa que amar sempre foi.
Se perdeu sem ao menos me procurar,
uma cerveja, um jantar, 
sua mão no meu seio, meu doce receio, 
e te ouvir respirar.

Meu amor, eu morro por dentro
e durmo no relento do que sobrou de nós dois.
Nossas melodias sempre desconexas
são apenas migalhas de tudo que restou.

Não existe mais um só. Apenas os dois.
Solitários.
Sem rumo, sem brigas.
Silêncio.
Sem beijos, sem nada.

tarde demais.

Você me amará quando for tarde demais

Quando meu corpo gelar
E o último batimento em meu peito
Soar como um gongo chinês em seus ouvidos

Dirá que me amou como jamais amou ninguém

Não se lembrará dos gritos na madrugada
Das palavras de ódio

Da insatisfação constante.

Pensará nos dias em que não me sorriu um bom dia,
Quando virou as costas para um fantasma triste.
Desejará dizer tudo o que não teve tempo
E amar o tanto que não foi capaz.

Lembrará de quando eu cantava no banho
Do seu prato favorito que preparei na noite fria
No carinho atrás da orelha antes de dormir.

Você me amará quando for tarde demais.

Setenta dias de seca.

Por setenta dias de seca

Sonhos, dentro de mim, definharam

Com o chão que rachava, a pele ferida

Com o sertão que era meu peito

Depois da primeira despedida

Com os planos que levou consigo

Os véus, os vestidos

Os berços e as canções

A paixão que lentamente

Desaparecia.

Era tua solitária dentro do rio arenoso

Aquele buraco de terra

O sol ardendo a pele.

Era tudo o que sempre tive certeza

E de repente nada mais havia.

 

cemitério de sonhos.

dentro de mim existe um buraco negro
e nele joguei minh’alma,
a essência de tudo que um dia sonhei ser.

os pincéis cheios de guache e tinta acrílica ,
as rimas sujas, pobres ou ricas.
as horas sentadas à máquina
costurando sonhos que nunca se realizariam.

a menina-moleque, com os dedos dos pés cravados na terra
roubando fruta do quintal do vizinho
com um vestido florido todo rasgado
com o cheiro da grama nos cabelos claros.

dentro de mim existe um poço sem fundo,

uma realidade mórbida,
uma curiosidade estática,
a lápide de tudo aquilo que sempre quis ser
e não sou.

Rehab.

Com os dois deitados de lado no pouco espaço que restava, ele tocou a ponta de seu nariz com o dedo e ficou observando-a, vesga, fazendo graça. A bela não sorria, entretanto. Esperava que ele risse, e riu. Disse:
– Que bonita você fica assim.
E riram. Fizeram amor.

– Você deveria fazer algo maior com sua vida.
– Tipo o quê?
– E eu que sei? A vida é sua pra saber. Mas ela é destinada a coisas maiores.
Pensou, mas não falou: “Coisas maiores como eu e você.”

Sabia que nunca seria uma verdade. Que aquele momento era único, e por mais que se repetisse, nunca era a mesma coisa. A cada beijo, cada entrega, cada vez que sua intimidade úmida pulsava no domínio daquele que nem ao menos lhe merecia, ela se esvaía um pouco de si. Perdia alguns milésimos de sanidade, chorava dias a fio. Depois se entregava novamente, porque a dor é o pior dos vícios. O prazer injetado direto no sangue, o corpo dormente, a necessidade de mais uma dose: a química entre dois seres humanos é pior que heroína.

E mata.

Ele percebeu a dor em seus olhos, mas nada disse. Não havia nada a ser dito que pudesse melhorar essa situação inóspita. Palavras, nesse caso, tem a mesma função de uma lança cravada no estômago: não existe nenhum ponto de vista que mostre essa situação como uma coisa boa.

– Amanhã me viro com a abstnência. Só mais uma dose, pra finalizar o dia.
Ela riu, pra aliviar o ar pesado. Ele também riu porque, juntos, eram tudo o que sabiam fazer. Depois tocou a sobrancelha dela devagar, desenhou com a ponta dos dedos o contorno de seu rosto.

E fizeram amor.

A louca.

Anos atrás, um amante do passado muito do desavisado me contou que havia lido meus poemas. Chegou a eles não sei como – logo ele que afirmava não se interessar por minha vida, dizem sempre os homens com grandes egos – e havia lido todos. Fez seus cálculos de datas e situações, pensou nos dias bons e nas brigas. Depois veio cautelosamente me afirmar como um médico dando uma péssima notícia a um paciente, uma sentença de morte: “Você sabe que estas coisas nunca aconteceram, certo?”.

Acho – tenho certeza – de que ele pensava – e ainda pensa – que sou louca. Mas não a louca-artista, não essa loucura poética que tem todos os que pensam demais com os sentimentos – sejam eles de amor, de ódio, de luxúria. Ele pensava que eu era esquizofrênica ou tivesse qualquer seríssimo transtorno mental, que acreditava em situações inexistentes e impossíveis, que realmente pensava que aquele amor todo era real.

Sorri. Toquei seu rosto como uma mãe que acaba de ver o filho dizer uma grande besteira, com a expressão calma simplesmente pelo fato de saber mais. Respondi: “Meu querido, se tanto amor fosse real, não gastaria meu tempo com palavras. Se estas cenas fossem verdadeiras, eu não precisaria escrevê-las.”

Então o esqueci.