O álbum de retratos.

Abriu o álbum de retratos pra se lembrar dos dias em que foram felizes sentados ali mesmo naquele sofá azul celeste, comprado com tanto esforço numa tarde quente. Os sorrisos nas fotos pareciam pinturas que retratavam dias que nunca haviam acontecido. Dias que passavam à cento e cinquenta quilômetros por hora, porque a felicidade é uma turbina, e tudo o que sentia naquela época fazia a vida passar tão rápido que nem percebeu quando acabou. Agora era só tristeza, e a tristeza é lenta, devagar como um filme em slow motion, daqueles que fazem sentir até enjoo e aflição, e quando percebe está com as pernas batendo desritmadas, culpa da vontade que acabe logo pra saber o que vai acontecer.

Aquelas fotos eram as provas necessárias pra ter a certeza de que um dia esteve viva, pois já não fazia a menor ideia se toda a sua existência havia sido uma ilusão ou se estava apenas presa em um limbo entre o inferno e a terra. Porque sim, havia vivido demais e muito intensamente, e com isso o céu nunca havia sido uma opção. E para ela estava tudo bem, pois viveu com amor, com a paixão dos desesperados, e isso fazia tudo valer a pena até o dia em que acabou.

O dia em que acabou foi como se fosse a morte, uma remoção cirúrgica e sem anestesia de seu estômago. ‘O amor fica na barriga’, sempre disse, pois é ali que fervia quando sentia ciúmes, era ali que tremia quando ficava feliz, era seu abdome o dono de todas as contrações das centenas de orgasmos que jurava ter tido. Mas agora, sentada no sofá em que fizeram sexo e amor, com o álbum de retratos que montou como um presente que nunca foi e nem seria entregue, já não sabia se tudo algum dia tinha sido verdade. Se os beijos, as palavras, os orgasmos e até mesmo o dia em que tudo acabou realmente haviam acontecido ou eram parte de um pesadelo doente que nunca parecia ter fim.

Estava vazia, e o buraco onde que antes se encontrava seu estômago latejava ardente, um espaço vazio gritante.

Sabia que sempre teria aquelas fotos. Procurou uma superfície reflexiva para reconhecer seu rosto, já que havia quebrado todos os espelhos da casa, e agora não lembrava mais se aquela mulher sorridente era a mesma que ali se encontrava.

Sentada. No sofá azul celeste. Sua cor favorita. Com um álbum de retratos.