Não me restou nada quando Ciça me deixou.

Não me restou nada quando Ciça foi embora levando seu amor cru e incompleto. Não me restou a companhia no café da manhã e nem os suspiros de bom dia. Não me restou nenhum plano ou meta de vida. Levou consigo meu humor sarcástico e a risada leve. A vontade de estar um passo à frente. Quando Ciça me deixou, o universo inteiro ganhou um tom esverdeado e nauseante. As ruas me engoliam como num pesadelo absurdo. Qualquer esquina por onde passamos fazia parte de um delírio surreal. Ela nunca esteve ali, eu dizia em voz alta e assustava transeuntes desavisados da minha condição. Ela nunca esteve ali.

Não me restou nada do amor de Ciça que hoje jaz a sete palmos de terra fria e calculada onde não nascem flores, e o mato só é propício às ervas daninhas que se espalham como chagas sangrentas em todas as memórias felizes que um dia criamos juntos. Todas as memórias felizes que hoje apenas eu  carrego solitário, pois Ciça está morta em tantos sentidos da palavra que nem o mais capacitado filósofo teria coragem de dizer que ela está viva em algum lugar.

Descanse em paz.