Epitáfio

por daniellecruz

Das poucas coisas que levei da gente, uma delas foi a paixão por cozinhar. A coragem pra colocar a mão na carne, misturar os temperos, esquecer da receita e tentar novas alquimias nas panelas. Afora isso, não restou muita coisa. Depois de batalhas demais e uma guerra perdida, os escombros do que deveríamos ter sido foram reduzidos ao pó. Não restou amor, a mão na perna, o beijo de boa noite. Já perto do fim, com soldados exaustos demais para trocarem palavras, fez-se o silêncio.

Não éramos nada. 

Aprendi a perdoar. Descobri que precisava respirar fundo e deixar passar. Só que tantas vezes te disse que o amor é uma gangorra em que não dá pra brincar sozinho. Você preferiu outras formas de se divertir, com outras pessoas jogando teus jogos. E se foi.

E eu me fui de você.

Você me disse que eu só poderia escrever se estivesse triste. Fiquei sabendo que não é verdade. Que ver uma pessoa sorrindo pra gente com vontade, olhando no olho, é a maior inspiração que alguém pode ter. Maior que a angústia, que a solidão e o desespero. O coração cresce, fica gigante, e meus dedos inquietos. Pra não atropelar os momentos, escrevo. Tenho escrito todos os dias. Me perdoe, mas peguei de volta sem avisar todas as palavras que você me roubou. 

Aqui jaz um amor ausente. Sua falta não será sentida, pois me acostumei com o vazio. Tenho um coração livre e uma cabeça cheia de ideias. Não me reconheço. Vejo nossas fotos e não me reconheço.

Que aonde estiver, seja feliz.

Descanse em paz.

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