Fuga

por daniellecruz

O garçom serviu mais uma dose como se estivesse fazendo uma caridade. Ela virou de uma vez só pra sentir o efeito volátil do álcool mais rapidamente em seu sangue. Pensava que de todas as combinações de hidrogênio e carbono, o etanol era o mais confortante filho da tabela periódica. E aí se transportou pra uma época em que bastava sentar na rede, chupando o pedaço de cana-de-açúcar cortado pelo avô, sentindo a brisa quente no rosto enquanto observava os micos que vinham roubar fruta no quintal. Esse era seu paraíso. Ali, ninguém se importava com seu silêncio e sua timidez não era um defeito, apenas um charme. A verdade é que não estava mais naquela chácara a beira-mar. O mundo era, em partes, como o oceano – gigante, amedrontador. Com uma diferença: pensar em sua infinidade nunca lhe traria paz. 

 

(Esse texto foi produzido em um exercício do curso Go, Writers em São Paulo, setembro de 2013)

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