proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: setembro, 2013

Sofro com a antecipação da tua ida. Com tua mão na porta, os gatos te olhando como quem pede comida. Você vai virar pra trás e me encarar como se eu fosse transparente, o olhar perdido admirando tudo o que poderíamos ter sido e não fomos, nunca seremos. Serei aquela mulher com quem você passou uns bons anos, às vezes nem tão bons assim, até encontrar a outra que será o amor da sua vida e você levará para o altar. Quando ela dormir com a cabeça em teu peito você se lembrará das músicas que ouvíamos juntos enquanto ríamos das diferenças estúpidas. Lembrará de quando tua mão na minha era uma promessa de uma vida e um futuro, uma promessa velada e silenciosa do amor que não acabaria nunca. Você se lembrará dos meus beijos, e enquanto sente o cheiro dela sentirá a minha falta por um segundo. E depois passa. Passa como nosso amor corriqueiro de todas as manhãs nos beijos de bom dia, passa como um vagão de metrô cheio demais que faz com que você espere o próximo. E a vida segue, a gente se joga de cabeça em outros vagões e outros amores. Meus domingos sem você nunca mais serão os mesmos – e, mesmo hoje, com tua ausência intercalada, eu não odeio domingos como odiarei nesses dias futuros. Te procurarei no vazio da cama que um dia terá sido nossa e então será minha, como a mesa da sala e a televisão que cisma em piscar a cada hora.  Procurarei teu perfume nos travesseiros, uma camiseta antiga que você tenha deixado pra trás. Dormirei com ela até que todo o seu cheiro tenha esvaecido e em toda casa reste somente eu. Metade morta, metade ainda tua. Essa dor antecipada por causa de um futuro que ainda não aconteceu me navega adiante em meu rio de sentimento. Quero te amar todos os dias como se fosse o último. Como um canceroso que se descobre doente e percebe que a mais simples tarefa como ir ao mercado jamais será a mesma. Vê magia em cada caixa demorado e promoção de patê. Talvez eu tenha descoberto o segredo do amor intenso e saiba diferenciar o sentimento verdadeiro de uma necessidade qualquer. Amar de verdade é fantasiar o abandono, pra só então poder afirmar com certeza as três palavras que saem de nossas bocas a todo segundo e moram em nossos dedos como moedas no bolso do cobrador.

Eu te amo, eu te amo, eu te amo.

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Fuga

O garçom serviu mais uma dose como se estivesse fazendo uma caridade. Ela virou de uma vez só pra sentir o efeito volátil do álcool mais rapidamente em seu sangue. Pensava que de todas as combinações de hidrogênio e carbono, o etanol era o mais confortante filho da tabela periódica. E aí se transportou pra uma época em que bastava sentar na rede, chupando o pedaço de cana-de-açúcar cortado pelo avô, sentindo a brisa quente no rosto enquanto observava os micos que vinham roubar fruta no quintal. Esse era seu paraíso. Ali, ninguém se importava com seu silêncio e sua timidez não era um defeito, apenas um charme. A verdade é que não estava mais naquela chácara a beira-mar. O mundo era, em partes, como o oceano – gigante, amedrontador. Com uma diferença: pensar em sua infinidade nunca lhe traria paz. 

 

(Esse texto foi produzido em um exercício do curso Go, Writers em São Paulo, setembro de 2013)