Rehab.

por daniellecruz

Com os dois deitados de lado no pouco espaço que restava, ele tocou a ponta de seu nariz com o dedo e ficou observando-a, vesga, fazendo graça. A bela não sorria, entretanto. Esperava que ele risse, e riu. Disse:
– Que bonita você fica assim.
E riram. Fizeram amor.

– Você deveria fazer algo maior com sua vida.
– Tipo o quê?
– E eu que sei? A vida é sua pra saber. Mas ela é destinada a coisas maiores.
Pensou, mas não falou: “Coisas maiores como eu e você.”

Sabia que nunca seria uma verdade. Que aquele momento era único, e por mais que se repetisse, nunca era a mesma coisa. A cada beijo, cada entrega, cada vez que sua intimidade úmida pulsava no domínio daquele que nem ao menos lhe merecia, ela se esvaía um pouco de si. Perdia alguns milésimos de sanidade, chorava dias a fio. Depois se entregava novamente, porque a dor é o pior dos vícios. O prazer injetado direto no sangue, o corpo dormente, a necessidade de mais uma dose: a química entre dois seres humanos é pior que heroína.

E mata.

Ele percebeu a dor em seus olhos, mas nada disse. Não havia nada a ser dito que pudesse melhorar essa situação inóspita. Palavras, nesse caso, tem a mesma função de uma lança cravada no estômago: não existe nenhum ponto de vista que mostre essa situação como uma coisa boa.

– Amanhã me viro com a abstnência. Só mais uma dose, pra finalizar o dia.
Ela riu, pra aliviar o ar pesado. Ele também riu porque, juntos, eram tudo o que sabiam fazer. Depois tocou a sobrancelha dela devagar, desenhou com a ponta dos dedos o contorno de seu rosto.

E fizeram amor.

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