proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: maio, 2012

Rehab.

Com os dois deitados de lado no pouco espaço que restava, ele tocou a ponta de seu nariz com o dedo e ficou observando-a, vesga, fazendo graça. A bela não sorria, entretanto. Esperava que ele risse, e riu. Disse:
– Que bonita você fica assim.
E riram. Fizeram amor.

– Você deveria fazer algo maior com sua vida.
– Tipo o quê?
– E eu que sei? A vida é sua pra saber. Mas ela é destinada a coisas maiores.
Pensou, mas não falou: “Coisas maiores como eu e você.”

Sabia que nunca seria uma verdade. Que aquele momento era único, e por mais que se repetisse, nunca era a mesma coisa. A cada beijo, cada entrega, cada vez que sua intimidade úmida pulsava no domínio daquele que nem ao menos lhe merecia, ela se esvaía um pouco de si. Perdia alguns milésimos de sanidade, chorava dias a fio. Depois se entregava novamente, porque a dor é o pior dos vícios. O prazer injetado direto no sangue, o corpo dormente, a necessidade de mais uma dose: a química entre dois seres humanos é pior que heroína.

E mata.

Ele percebeu a dor em seus olhos, mas nada disse. Não havia nada a ser dito que pudesse melhorar essa situação inóspita. Palavras, nesse caso, tem a mesma função de uma lança cravada no estômago: não existe nenhum ponto de vista que mostre essa situação como uma coisa boa.

– Amanhã me viro com a abstnência. Só mais uma dose, pra finalizar o dia.
Ela riu, pra aliviar o ar pesado. Ele também riu porque, juntos, eram tudo o que sabiam fazer. Depois tocou a sobrancelha dela devagar, desenhou com a ponta dos dedos o contorno de seu rosto.

E fizeram amor.

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A louca.

Anos atrás, um amante do passado muito do desavisado me contou que havia lido meus poemas. Chegou a eles não sei como – logo ele que afirmava não se interessar por minha vida, dizem sempre os homens com grandes egos – e havia lido todos. Fez seus cálculos de datas e situações, pensou nos dias bons e nas brigas. Depois veio cautelosamente me afirmar como um médico dando uma péssima notícia a um paciente, uma sentença de morte: “Você sabe que estas coisas nunca aconteceram, certo?”.

Acho – tenho certeza – de que ele pensava – e ainda pensa – que sou louca. Mas não a louca-artista, não essa loucura poética que tem todos os que pensam demais com os sentimentos – sejam eles de amor, de ódio, de luxúria. Ele pensava que eu era esquizofrênica ou tivesse qualquer seríssimo transtorno mental, que acreditava em situações inexistentes e impossíveis, que realmente pensava que aquele amor todo era real.

Sorri. Toquei seu rosto como uma mãe que acaba de ver o filho dizer uma grande besteira, com a expressão calma simplesmente pelo fato de saber mais. Respondi: “Meu querido, se tanto amor fosse real, não gastaria meu tempo com palavras. Se estas cenas fossem verdadeiras, eu não precisaria escrevê-las.”

Então o esqueci.