Mas não disse.

Quis dizer tantas coisas, segurar seu rosto com as duas mãos e olhar nos olhos bem fundo. Tão fundo que mergulhasse naquele poço escuro e completamente misterioso que era seu olhar. Aqueles olhos que nunca falavam a verdade e serviam como máscara para algo muito maior.

Algo muito maior.

Mas no fim não disse nada porque de nada adiantaria. Suas palavras encontrariam o vento e desapareceriam no barulho dos carros, no barulho da mente, no desespero da alma perturbada que não sabe nem por onde começar a se encontrar.

Quis dizer que o amor foi tão grande que ficou. Que procuraria um pedaço dele em qualquer pessoa que passasse por sua vida – as risadas, os beijos, as canções, o tom de voz. E jamais estaria satisfeita porque aqueles beijos não eram dele, aqueles olhos não eram dele, aquelas mentiras jamais seriam dele.

Quis dizer “Você me quebrou.” Quis gritar que nunca seria normal novamente. Que agora ela era só dor e água salgada. Só beijos no vazio. Que agora ela falava sozinha com o espelho tudo aquilo que não tinha coragem.
Que nenhum outro amor jamais seria suficiente, jamais seria maior do que aquele que eles nunca tiveram. 

Quis dizer tudo isso mas não disse. 

E o silêncio a corroeu a alma, deixando uma cicatriz branca e muito mal nivelada.
Daquelas cicatrizes que ficam ali, cínicas, rindo da tua cara, pra te lembrar de todas as tuas decisões erradas.

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