O dia em que você me deixou.

por daniellecruz

Me peguei pensando no dia em que você me deixou, mesmo ele não tendo acontecido. E talvez não venha nunca a acontecer.

Não me entenda mal – você é tudo o que eu sempre quis, e mais um pouco, mesmo nos momentos de escuridão completa das nossas almas, quando a gente sente raiva de tudo e quer gritar um com o outro até as cordas vocais mandarem uma vibração suplicante de quem não aguenta mais. Mas é que eu sinto essa obrigação visceral de saber o que fazer no dia em que você for embora.

Porque, você sabe, não gosto de ser pega de surpresa. Na minha cabeça há tudo planejado, talvez de um jeito que não aconteça. Pra mim é sempre romântico e triste, enquanto o sol se põe vermelho ao fundo da janela aberta da nossa casa – pra qual ainda não mudamos -, teus livros já sem ocupar o espaço em nossas prateleiras brancas – que ainda não existem -, e a mensagem de voz no celular ouvida repetidamente com tua voz que diz ‘me perdoa’.

Então eu vou ficar ali, estática, em choque. Talvez mande um sms ou dois pra algumas amigas virem me socorrer, e até que alguém resolva descobrir pessoalmente em que estado brutal me encontro eu fique deitada no sofá sem conseguir derramar as lágrimas de sangue que com certeza tomarão conta de mim em momentos inapropriados como no meu primeiro encontro depois de você ter ido embora ou no meio de uma reunião de trabalho. Vou abraçar nosso cachorro – que ainda não compramos mas já tem nome, e se chama Mika – com um misto de tristeza e ódio, pensando se ele está com fome ou triste porque você não o amava o suficiente também. Afinal, ele ficou ali. Abandonado como eu, com os pêlos caindo nos olhos tristes, se aninhando solitário no meu ventre.

Então talvez se passem algumas horas ou alguns dias até que eu tenha coragem de ver meu rosto pálido no espelho, o reflexo desacredito de tudo que se passou. Talvez você volte, talvez você me ligue e eu com certeza não teria coragem de atender. Porque imagino, dentro dessa situação imaginária, que se eu atendesse o telefone eu me ajoelharia – mesmo que você não pudesse ver – e te imploraria pra voltar, tentando entender pra onde você se foi ou o porquê.

O dia em que você se foi, meu bem, foi o pior dia da minha vida – e ele nem teve a chance de acontecer. Mas a idéia do teu vazio me consome tanto que cria esse buraco também imaginário na minha barriga e me tira o ar. Você está aqui, ao meu lado, ao alcance dos meus beijos – mas eu já quero cair aos teus pés e te pedir pra voltar.

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