proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: maio, 2011

O dia em que você me deixou.

Me peguei pensando no dia em que você me deixou, mesmo ele não tendo acontecido. E talvez não venha nunca a acontecer.

Não me entenda mal – você é tudo o que eu sempre quis, e mais um pouco, mesmo nos momentos de escuridão completa das nossas almas, quando a gente sente raiva de tudo e quer gritar um com o outro até as cordas vocais mandarem uma vibração suplicante de quem não aguenta mais. Mas é que eu sinto essa obrigação visceral de saber o que fazer no dia em que você for embora.

Porque, você sabe, não gosto de ser pega de surpresa. Na minha cabeça há tudo planejado, talvez de um jeito que não aconteça. Pra mim é sempre romântico e triste, enquanto o sol se põe vermelho ao fundo da janela aberta da nossa casa – pra qual ainda não mudamos -, teus livros já sem ocupar o espaço em nossas prateleiras brancas – que ainda não existem -, e a mensagem de voz no celular ouvida repetidamente com tua voz que diz ‘me perdoa’.

Então eu vou ficar ali, estática, em choque. Talvez mande um sms ou dois pra algumas amigas virem me socorrer, e até que alguém resolva descobrir pessoalmente em que estado brutal me encontro eu fique deitada no sofá sem conseguir derramar as lágrimas de sangue que com certeza tomarão conta de mim em momentos inapropriados como no meu primeiro encontro depois de você ter ido embora ou no meio de uma reunião de trabalho. Vou abraçar nosso cachorro – que ainda não compramos mas já tem nome, e se chama Mika – com um misto de tristeza e ódio, pensando se ele está com fome ou triste porque você não o amava o suficiente também. Afinal, ele ficou ali. Abandonado como eu, com os pêlos caindo nos olhos tristes, se aninhando solitário no meu ventre.

Então talvez se passem algumas horas ou alguns dias até que eu tenha coragem de ver meu rosto pálido no espelho, o reflexo desacredito de tudo que se passou. Talvez você volte, talvez você me ligue e eu com certeza não teria coragem de atender. Porque imagino, dentro dessa situação imaginária, que se eu atendesse o telefone eu me ajoelharia – mesmo que você não pudesse ver – e te imploraria pra voltar, tentando entender pra onde você se foi ou o porquê.

O dia em que você se foi, meu bem, foi o pior dia da minha vida – e ele nem teve a chance de acontecer. Mas a idéia do teu vazio me consome tanto que cria esse buraco também imaginário na minha barriga e me tira o ar. Você está aqui, ao meu lado, ao alcance dos meus beijos – mas eu já quero cair aos teus pés e te pedir pra voltar.

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um.

acho que às vezes esqueço de dizer
o quanto te amo aqui nestas linhas tortas
pra que você veja o quanto te quero nas manhãs
de sono, preguiça e idas à feira.

talvez – com certeza – você nunca compreenda
que nosso amor eu te provo todos os dias
na vida que construímos e nada abala,
nos beijos de boa noite, no cinema de domingo.

e que tudo aquilo que eu antes gravava
em palavras perdidas num silêncio vazio
ficou esquecido no passado vadio
de paixões prévias e estúpidas que perderam o sentido.

é você: meu namorado, meu bem, meu homem
quem vai me levar ao altar no fim da tarde
com o vestido na altura dos joelhos
e as flores trançadas com cuidado nos cabelos

eu te dei tudo o que eu tinha e mais um pouco.
porque é nos teus olhos que eu me sinto em casa
é na nossa cama desarrumada, no nosso futuro próximo,
no conforto do primeiro amor a ser correspondido.

eu te amo, e não escrevo
porque não inventaram ainda essas palavras
o que eu preciso dizer, o calor que eu sinto
o ardor que consome meu peito, a ânsia

a saudade que sufoca quando você vai embora
do nosso ninho construído com nosso zelo conjunto
não existe poeta capaz, nem no passado e nem agora,
de escrever as palavras pro meu maior amor do mundo.