proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: agosto, 2010

ausência II

“e eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos, que são doces,
porque nada poderei te dar senão a mágoa de me veres
eternamente exausto.”
– Vinicius de Moraes

tenho caminhado por corredores escuros
tateando paredes frias e rostos sem nome.
procurando uma razão pra este precipício
que se instaurou em minha alma como um castigo divino.

não tenho amor, não tenho fome, nada me sacia
não sinto nada a não ser ódio por meu reflexo no espelho
essa garota cansada é apenas mais uma imagem vazia.

faz frio e eu que um dia mantive tuas mãos em meus braços
me arrepiando a nuca e me mantendo aquecida
me enrosco em meu próprio corpo pra recordar nossos laços
sussurro tuas melodias de quando ainda não estava perdida.

Anúncios

segundos.

naqueles segundos
me trate como uma princesa,
do alto de sua realeza,
então me possua como uma meretriz.

tua cabeça entre minhas pernas,
os beijos urgentes de quem tem sede
e planeja me roubar a última gota de saliva quente.

meus cabelos entre teus dedos, com força.
um beijo terno em minha testa
e o medo de me deixar partir.

teus olhos certos,
meu gosto doce,
e a explosão que precede o nada.

você dormia.
minhas maiores revelações tem sido enquanto você dorme
e aperta meus dedos como quem não vai me deixar partir.
encostei o nariz nas suas costas pra sentir seu cheiro,
pra não esquecê-lo.

então um arrepio percorreu meu corpo
como uma onda incontrolável
que bate na calçada se a maré é cheia.

era você. e eu só havia sentido aquilo uma vez antes.
é você quem vai me dar tudo,
ou me deixar com nada.
era você quem arrancaria o pouco que resta de mim
até a última gota,
até secar a fonte.
é você quem pode, mas não quer,
é você quem vai demolir meu forte.
que eu quero amar um dia,
pra sempre, intensamente,
aquele amor sem parâmetro
porque ainda não foi inventado.

é você quem vai partir sem saber o estrago.

incerto.

quando acordei você ainda dormia com um leve sorriso no rosto, os dedos entrelaçados nos meus. te observei por um segundo, tentando gravar pra sempre essa imagem na minha memória. tentando entender o que era o formigamento quase infantil que dominava meu peito.
aconteceu que hoje eu acordei querendo sentir.
mas não que eu não sentisse, porque a essa altura já era tarde, tarde demais. mas decidi me permitir. vamos arriscar, meu amor, que se esse carinho não der certo ao menos foram algumas noites menos solitárias que passei acordando com teu corpo colado no meu, as pernas enroscadas, os braços doloridos.
você suspirou forte e eu fechei os olhos pra me perder em uma mistura de sonho e realidade, sons e cheiros. tua pele, quente. você beijou minha testa, mas eu tenho certeza que ainda dormia.
você chamou meu nome.

meu nome.

passou os braços pela minha cintura, me virou de lado e afundou o rosto entre meus cabelos, na minha nuca. eu não queria me mover. não conseguiria, se quisesse. meu corpo estava dormente, naquele lugar confortável, meu quadril formando a forma perfeita na nossa silhueta. era teu colo, teu toque.

é isso, pensei.
é isso que faz tudo valer a pena.

mesmo que nosso mundo se acabe amanhã.