por daniellecruz

ela estava com febre.

sentada no colchão largado no chão em meio a montanhas de roupas, maquiagens, sapatos, laptops. ela se sentia febril. seu corpo quente congelava por dentro, os arrepios vinham em ondas, ela queria vomitar.
estava fazendo de novo, contra sua própria vontade. um suicídio lento, o auto-boicote. os comprimidos, o alcool excessivo, os pesadelos, o ciúme corroendo o estômago.
ele perguntou seu nome e ela respondeu, tímida, e foi aí que começou. e tudo aquilo não fazia sentido. estava dormindo ou acordada? havia parado de procurar há tempos. havia desistido de querer, do desejo, porque tudo aquilo doía demais. amar não deveria ser assim, ela pensou por tanto tempo. o amor deveria ser aquela coisa que tira você do chão, que te faz cantar no banho. mas, como dizem por aí, o amor não é isso.
o amor vai te manter entre os copos vazios de vodca e os indutores de sono. o amor vai te fazer precisar de três banhos quentes no dia.
o amor vai te matar aos poucos antes mesmo de acontecer.
o amor é uma grande troca de interesses e ela não tinha mais nada pra oferecer.

apenas a febre. e as feridas nos lábios, a pele arranhada. camisetas rasgadas, cartas que nunca seriam entregues.

e os comprimidos.
sempre teria os comprimidos.

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