proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: julho, 2010

ela estava com febre.

sentada no colchão largado no chão em meio a montanhas de roupas, maquiagens, sapatos, laptops. ela se sentia febril. seu corpo quente congelava por dentro, os arrepios vinham em ondas, ela queria vomitar.
estava fazendo de novo, contra sua própria vontade. um suicídio lento, o auto-boicote. os comprimidos, o alcool excessivo, os pesadelos, o ciúme corroendo o estômago.
ele perguntou seu nome e ela respondeu, tímida, e foi aí que começou. e tudo aquilo não fazia sentido. estava dormindo ou acordada? havia parado de procurar há tempos. havia desistido de querer, do desejo, porque tudo aquilo doía demais. amar não deveria ser assim, ela pensou por tanto tempo. o amor deveria ser aquela coisa que tira você do chão, que te faz cantar no banho. mas, como dizem por aí, o amor não é isso.
o amor vai te manter entre os copos vazios de vodca e os indutores de sono. o amor vai te fazer precisar de três banhos quentes no dia.
o amor vai te matar aos poucos antes mesmo de acontecer.
o amor é uma grande troca de interesses e ela não tinha mais nada pra oferecer.

apenas a febre. e as feridas nos lábios, a pele arranhada. camisetas rasgadas, cartas que nunca seriam entregues.

e os comprimidos.
sempre teria os comprimidos.

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vontade.

acordei procurando teu corpo quente
e teus braços me pressionando contra teu peito.
você não estava lá.

fechei os olhos pra sentir mais uma vez
os teus lábios percorrendo minhas costas nuas,
sua respiração fazendo cócegas em minha pele.
te ver sorrindo, falando coisas sem sentido,
teu riso moleque de quem aprontou algo
que eu ainda não descobri.

fechei os olhos porque aquilo era tudo o que eu sempre quis.

e se você não está minha pele grita,
sua ausência queima,
essa incerteza mata lentamente.

e se você não está,
eu não estou também.

era ela.

morena, petit,
as partes de teu corpo
são quase pequenas demais para minhas mãos.
teus beijos são um crime, um crime,
sua respiração em meus ouvidos, baixinha,
me fazem perder o chão.
e se os deuses pudessem ouvir teus gemidos
que mundo perfeito seria,
os céus teriam outras cores,
e todas as tuas frases sem sentido
gravadas em pedra na natureza
seriam meus mantras de boa sorte,
meus beijos de boa noite,
meus pequenos desejos de morte.