deus sabe.

por daniellecruz

te amei. e deus sabe como te amei.
mas era um amor moleque, que não sabe dos perigos, e ainda assim caminha descalço nos trilhos do trem. amava teus dedos que nunca estavam aonde eu queria que estivessem. amava tua falta de ordem na vida, a não perspectiva de futuro. amava dormir no colchão de baixo com o braço esticado pra poder tocar tua mão.
amava amar você, porque doía. e doía muito, como se torcessem minha carne, como um beliscão bem dado. doía como aquela vez que fui parar no hospital com um rim doente e até hoje ainda dói com um gole de vodca ou dois.
mas era, e é, como se houvesse um buraco dentro de mim. uma estante nova, esperando os livros. vendo assim, vazia, até que é bonita – dá um ar de sofisticação, uma superioridade, algo de quem está vazio porque quer. mas eu não sou desses quebras cabeças que se vê a figura com peças faltando, meu amor. eu quero o jogo completo. todas as peças, todo o processo, todos os anos e meses escorrendo na ampulheta até você me desvendar inteira.
tive que partir, porque te amei. e deus sabe como te amei.
mas era um amor sozinho, solitário, que observava a cidade do alto do prédio. um amor sem volta, sem surpresa no meio da madrugada, sem chá de limão pra quando se está doente.
e sei que venci. porque só os vencedores sabem amar desse jeito e sair de cabeça erguida. porque sou abençoada por ser capaz de sentir esse tornado louco dentro de mim, de querer beijar na chuva e bagunçar o cabelo, essa urgência quente que é te querer desse jeito.
e porque é uma pena que você não saiba o que é isso. e que não tenha me amado de volta pra fazer do meu tornado uma brisa tranquila na beira da praia, vendo o pôr-do-sol.

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