proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: maio, 2010

diálogo qualquer.

ela o olhou nos olhos e disse:
– você deveria fazer teatro. quem sabe não se encontra?
ele suspirou, deu um beijo em sua testa.
– mas é que não estou me procurando. gosto de ser assim, perdido.
– e não fica tonto?
– tonto com o que?
– com as coisas da vida nesse labirinto todo.
– não fico. viver é assim. uma tontura que só.
– ainda não sei como você consegue. é preciso um chão firme.
– é preciso uma rede numa tarde de outono.
– é preciso saber se localizar num mapa.
– é preciso saber se perder sem saber pra onde.
silêncio.
– somos diferentes, não somos?
– e ainda assim, somos a mesma pessoa.
ela deu um gole na cerveja já quente.
– nunca tomo o último gole – pensou alto.
ele riu. pegou a cerveja de sua mão e tomou.
– nos completemos, então.

deus sabe.

te amei. e deus sabe como te amei.
mas era um amor moleque, que não sabe dos perigos, e ainda assim caminha descalço nos trilhos do trem. amava teus dedos que nunca estavam aonde eu queria que estivessem. amava tua falta de ordem na vida, a não perspectiva de futuro. amava dormir no colchão de baixo com o braço esticado pra poder tocar tua mão.
amava amar você, porque doía. e doía muito, como se torcessem minha carne, como um beliscão bem dado. doía como aquela vez que fui parar no hospital com um rim doente e até hoje ainda dói com um gole de vodca ou dois.
mas era, e é, como se houvesse um buraco dentro de mim. uma estante nova, esperando os livros. vendo assim, vazia, até que é bonita – dá um ar de sofisticação, uma superioridade, algo de quem está vazio porque quer. mas eu não sou desses quebras cabeças que se vê a figura com peças faltando, meu amor. eu quero o jogo completo. todas as peças, todo o processo, todos os anos e meses escorrendo na ampulheta até você me desvendar inteira.
tive que partir, porque te amei. e deus sabe como te amei.
mas era um amor sozinho, solitário, que observava a cidade do alto do prédio. um amor sem volta, sem surpresa no meio da madrugada, sem chá de limão pra quando se está doente.
e sei que venci. porque só os vencedores sabem amar desse jeito e sair de cabeça erguida. porque sou abençoada por ser capaz de sentir esse tornado louco dentro de mim, de querer beijar na chuva e bagunçar o cabelo, essa urgência quente que é te querer desse jeito.
e porque é uma pena que você não saiba o que é isso. e que não tenha me amado de volta pra fazer do meu tornado uma brisa tranquila na beira da praia, vendo o pôr-do-sol.

listas.

quero quem não consiga manter as mãos longe do meu corpo
pra me fazer corar em locais públicos.
quero quem olhe nos meus olhos
como faróis num oceano vasto,
com o alívio de quem finalmente encontrou o que procurava.
e quando a vida tiver que acontecer
me faça perder o foco,
e quando for a hora de ir embora
fique mais um pouco
quero quem nunca sacie a sede de minha saliva doce
e se perca por horas em cada pedaço de meus ombros,
pra contar meus sinais como um transtorno louco
e ver constelações onde antes não havia nada.
quero quem perca o ritmo, a fala,
quero quem tenha coragem para dar o tapa,
quero quem fique nos meus dias de escuridão completa
e admire em silêncio noites de lua nova.
quero tudo, quero nada, quero alguém inteiro,
quero alguém sem medo, sem passado e sem futuro,
quero teus dias como se arrastassem os ponteiros,
quero insanidade temporária,
quero um eu em outro mundo.

eu era muito rock ‘n roll pra tua bossanova
e ainda assim encontrei em teu peito um magnetismo louco:
era aquilo – eu pensei – e mais de tudo um pouco,
o desejo que nascia naqueles trinta metros cúbicos
e desaparecia no segundo e que se ia pela porta.
jamais senti tua falta a não ser em noites frias,
nas quais despida de pudores chamei teu nome em dedos úmidos
e quanto mais lentamente a noite se esvaía
mais intensos eram teus lábios em meus segredos mais profundos.
aprendia outras linguagens e gritava nomes feios,
meu suor escorria sem pressa pelas tuas costas quentes.
e enquanto tu conquistavas minhas terras lentamente
outros nomes se cravavam nas entranhas de meu seio.