sinestésica

por daniellecruz

Fechou o portão de ferro com as mãos tremendo de ansiedade, enquanto já se colocava na direção dos passos longos e rápidos. Quase corria com um meio sorriso ao rosto, um pouco pirata, um tanto criança. Sentiu o coração bater mais forte, bem forte, tão forte que te deu tontura – o que há de ser de mim, pensou, se agora eu sou tanto amor? Em dois segundos sentiu o medo, o pavor, as lágrimas entaladas. Lembrou-se dos beijos e dos cheiros, e se reconfortou. O ônibus havia chegado.

Em pé na esquina ela dançava de um lado pro outro, cantando uma melodia imaginária no seu fone de ouvido imaginário. Sabia que a observavam com curiosidade, às vezes espanto, às vezes admiração, mas ela não se importava. Era apenas mais uma de suas artimanhas para que os segundos passassem mais rápido. E passaram. Quando se virou o viu, lá longe, e quis vomitar. Não sabia explicar e nem queria tentar, mas essa ânsia era de alegria – queria vomitar de tão feliz que ficava quando ele estava por perto. Continuou cantando, dançando, dando pequeníssimos passos e saltos pra lá e pra cá porque esses poucos segundos – e agora seriam menos de dez – em que ele vinha em sua direção eram uma câmera lenta insuportável. Chega logo, venha logo, me beija logo, ela pensava. Não cabia em si.

Fechou os olhos pra se despedir. Beijou com carinho os lábios macios e suspirou, apertando o dedo indicador. Olhou aqueles olhos – tão claros, tão lindos, tão brilhantes e tão vazios – pela última vez e sentiu a escuridão tomar conta dos dedos dos pés. Enquanto o trem não chegava, se via no reflexo do outdoor e pensava aonde exatamente iria a peça que faltava, o que é que ela não tinha, o que não sabia fazer. Sentiu um buraco. Ela era incompleta. Era, como sempre havia sido, uma boneca de porcelana. Uma boneca quebrada. Desejou mais do que tudo ser inteira, perfeita, única, sabores e cheiros. Sinestésica.

Encostou a cabeça na janela e deixou que as lágrimas escorressem tímidas, lavando a dor dos últimos dias, a dor latente, que gritava enquanto ele tapava os ouvidos e a silenciava com beijos urgentes, escondendo o rosto em seus ombros, seu pescoço.
Por fim, agora sozinha, desistiu. Não havia para onde correr.
Era solitária,
e era toda torpor.

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