proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: setembro, 2009

te digo: a felicidade não é poética. as rimas moram nas lágrimas, em sobrados feitos de madeira já desgastada pelo tempo.
e hoje, justo hoje, nesse dia de garoa e ventos frios, eu quis escrever sobre tudo aquilo que brilha. sobre o sol, o sal do mar, o teu sorriso quente. tuas mãos deslizando suavemente pelos meus braços, segurando meu cabelo com firmeza. sobre nossas conversas, sua voz falando besteiras, sussurando em meus ouvidos, a respiração ofegante.
hoje eu tive um desejo àvido de ser feliz em teus braços. de suspirar baixinho toda a alegria que não cabe em mim quando teus olhos ficam fixos nos meus, quando eu me esqueço de tudo.

tive que apelar pra prosa pra te dizer o quanto te quero.

sinestésica

Fechou o portão de ferro com as mãos tremendo de ansiedade, enquanto já se colocava na direção dos passos longos e rápidos. Quase corria com um meio sorriso ao rosto, um pouco pirata, um tanto criança. Sentiu o coração bater mais forte, bem forte, tão forte que te deu tontura – o que há de ser de mim, pensou, se agora eu sou tanto amor? Em dois segundos sentiu o medo, o pavor, as lágrimas entaladas. Lembrou-se dos beijos e dos cheiros, e se reconfortou. O ônibus havia chegado.

Em pé na esquina ela dançava de um lado pro outro, cantando uma melodia imaginária no seu fone de ouvido imaginário. Sabia que a observavam com curiosidade, às vezes espanto, às vezes admiração, mas ela não se importava. Era apenas mais uma de suas artimanhas para que os segundos passassem mais rápido. E passaram. Quando se virou o viu, lá longe, e quis vomitar. Não sabia explicar e nem queria tentar, mas essa ânsia era de alegria – queria vomitar de tão feliz que ficava quando ele estava por perto. Continuou cantando, dançando, dando pequeníssimos passos e saltos pra lá e pra cá porque esses poucos segundos – e agora seriam menos de dez – em que ele vinha em sua direção eram uma câmera lenta insuportável. Chega logo, venha logo, me beija logo, ela pensava. Não cabia em si.

Fechou os olhos pra se despedir. Beijou com carinho os lábios macios e suspirou, apertando o dedo indicador. Olhou aqueles olhos – tão claros, tão lindos, tão brilhantes e tão vazios – pela última vez e sentiu a escuridão tomar conta dos dedos dos pés. Enquanto o trem não chegava, se via no reflexo do outdoor e pensava aonde exatamente iria a peça que faltava, o que é que ela não tinha, o que não sabia fazer. Sentiu um buraco. Ela era incompleta. Era, como sempre havia sido, uma boneca de porcelana. Uma boneca quebrada. Desejou mais do que tudo ser inteira, perfeita, única, sabores e cheiros. Sinestésica.

Encostou a cabeça na janela e deixou que as lágrimas escorressem tímidas, lavando a dor dos últimos dias, a dor latente, que gritava enquanto ele tapava os ouvidos e a silenciava com beijos urgentes, escondendo o rosto em seus ombros, seu pescoço.
Por fim, agora sozinha, desistiu. Não havia para onde correr.
Era solitária,
e era toda torpor.

não quero mendigar teu amor vadio.
quero sim que me queiras
com urgência e febre.
que teus poros clamem meu corpo,
que tua mente lhe mantenha desperto.

quero tudo que não será recíproco.
quero tua lingua quente em minha pele,
tuas mãos desbravando os milimetros,
tuas palavras invadindo os ouvidos.

Então sem saber eu serei tua,
quando se tornar impossível viver sem teus cheiros,
sem teus abandonos e teus beijos violentos,
sem tudo o que não há.

momentos.

fui feliz naquela manhã de outono
em que acordei com o rosto entre teus cabelos
enroscando as pernas nas tuas
que cismavam em fugir
do meu enrosco desordenado.

fui feliz quando percebia tuas manias
e nos compreendíamos em nossas loucuras.
quando ríamos como crianças
das teorias sem sentidos.
gargalhadas no vazio,
beijos tímidos,
nossos dedos entrelaçados.

‘imagine, apenas imagine,
se esse ponto aqui fosse o mundo inteiro,
numa metáfora da nossa vida
se desintegrando aos poucos
até desaparecer por completo.’

só fui feliz quando amei.

ausência – parte II

depois de você
minha cama de solteiro
é um oceano vasto.
e todo esse espaço
é a espera do teu abraço,
do teu nariz em minha nuca,
tua respiração calma
e profunda.

depois de você
os dias não passam.
meu corpo não responde,
minha voz já não fala,
minha alma não cala,
minhas lágrimas não secam.
meu sorriso te espera
tão triste.

a febre domina
a pele sensível,
branca e solitária,
em sonhos sem sentido

o vermelho sangue,
a dor é contínua.
tua ausência é um buraco
que hoje me domina.
precipício negro,
teus olhos,
teus beijos.