cartas de adeus – parte II

por daniellecruz

sentei na cama pra te ver dormir. decorei teus traços quase perfeitos, os lábios que eu gosto de beijar. coloquei minha mão no seu peito, você respirava fundo.
eu havia acordado enjoada de uma série de pesadelos criados pela minha mente perturbada. fui ao banheiro, lavei o rosto, olhei o espelho. me achei bonita com o cabelo liso caindo numa franja gigante cobrindo meu rosto. queria estar fisicamente disposta pra poder me sentir sexy às dez horas da manhã. impossível. mas mesmo assim abri a porta e vi meu corpo no espelho grande. o que havia acontecido? em pouco tempo eu ganhei formas femininas que com certeza não estavam lá um ano atrás.
voltei pra você enquanto tremia de frio, e estava intacto na mesma posição… quase perfeito. tão perto e tão distante. resmungou uma coisa qualquer e apertou os olhos, me perguntei o que você estaria sonhando. decidi que nao queria saber e me peguei por alguns minutos te observando, tentando entender de onde saía isso tudo dentro de mim, essa corrente elétrica que passa pelo meu corpo quando você me olha mesmo distante. essa coisa que me faz parar de prestar atenção no que você está falando e ficar hipnotizada nos teus olhos. não achei explicação.
coloquei as mãos geladas nas tuas e me encaixei no teu corpo. já fazia uma hora que eu estava acordada e meu corpo pedia arrego, querendo descansar. você se mexeu pra se confortar em mim e colocou o pé no meu pé gelado. senti o corpo esquentar e adormeci num sono sem sonhos ou pesadelos.

*

toda vez que eu vou embora, sorrio pelo caminho. e toda vez que vou embora, eu penso que pode ser a última vez que faço esse percurso. não espero que você se derreta todos os dias. não espero nada além do carinho momentâneo. é um escudo invisível. mordo os lábios sentindo ainda o gosto e o toque do seu beijo que já ficou no passado. toda vez que eu vou embora eu murmuro um adeus baixinho quando ouço a porta fechar e me permito um segundo de sofrimento calado. me permito ser tua por um instante pra depois não ser mais. agora que eu sou das ruas, eu sou muito minha, pra poder ser fortaleza quando te ver de novo, e te sentir escalando minhas pernas àvido por algo que eu não sei o quê.

*

eu não quero saber o que nos guarda. não quero pensar no futuro ou fazer planos. estar ali me fez querer ter só a delícia do momento e eu compreendi que só assim se é feliz. não quero saber o que a vida vai me aprontar daqui a um segundo.
essa mesma vida é curta demais.
já não me interessa.

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