proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: julho, 2009

bicho.

fiquei paralisada
tua foto brilhava na minha tela
era tua mão espalmada
com as linhas conhecidas
a cor tão parecida com a minha
os dedos longos
as unhas roídas.

estiquei as mãos
e toquei tua luminosidade estática.
imaginei que era real
lembrei da maciez da tua pele
do teu cheiro
do teu grande vazio
da tua capacidade de não ser nada.

mentalmente beijei teus lábios
o gosto doce, o nariz gelado
beijei as memórias daquele passado
o dia em que decorando
os caminhos da tua palma
chorei baixinho a ausência
dos nossos amores inacabados.

quiuí.

ela era pequena, do tamanho do meu abraço. sua pele contrastava com a minha formando a dupla mais bonita de cores que eu já havia visto. eu não me lembro nunca como as coisas aconteciam, mas eram sempre muito cautelosamente. era um segredo escondido no coração, um formigamento que se transformava em milhões de fogos de artifício no momento em que nossos lábios se encontravam. nada importava – os bares baratos, os amigos, os olhares. não existia mais nada ao nosso redor quando ela sorria, e ela sempre estava sorrindo. eu tatuei aquele sorriso tímido na minha mente, a pele azeitonada, o cheiro doce.
tudo nela era doce. o modo como se movia, como me olhava sempre baixando lentamente o queixo.

quis entender seu mundo, seus medos. fechava os olhos pra tentar ver as coisas como ela via. eu lembro de estar com os pés em sua cadeira quando prometi o dia em que seria minha. coloquei uma data e disse “acostume-se com isso”.

mas eu tive que escolher e por medo, por pavor, por pura incompetência, eu escolhi o caminho mais fácil. e no fim dessa estrada iluminada e sem buracos… ela já não estava lá. eu me vi sentada num campo gramado com um sol que parecia nunca nascer por completo, onde fazia frio e eu estava sozinha com meus próprios pensamentos. onde eu sabia que não seria o suficiente, que nunca seria completa. onde o medo era maior, mas o amor era tão grande que eu escolhi ficar ali para vê-la feliz florescendo em outros jardins.
com outras meninas bordadas de flor.

sua ausência é um buraco em meu peito e qualquer manifestação da sua existência ainda me deixa sem ar. eu não sei o que fazer na sua presença e é como se todos soubessem dos nossos fogos de artifício.

quiuí, você é toda quiuí, macia e doce, rara e brilhante.
seja pra sempre fruta,
seja pra sempre doce,
seja pra sempre minha, em algum lugar, em algum jardim qualquer.

todas as minhas flores são pra você.
e elas são eternas.

todo.

quero deitar meu corpo nu sobre tuas costas
e traçar padrões desordenados em tua pele branca
te sussurrar segredos e dizer as coisas que ninguém mais teve coragem.
e ficar aí dentro.

quero derreter esse teu gelo com minha febre latente,
te arrastar nos meus delírios mais insanos,
te traduzir minhas dores e meus dialetos,
te sentir completo.

quero me fazer necessária nesse inverno quente,
ser parte da tua rotina, curar teu abandono.
e quando houver brecha em teu cotidiano
te possuir inteiro.

quero conquistar cada território nas pontas dos teus dedos,
dos teus braços,
dos teus olhos,
dos teus beijos mais urgentes.

cartas de adeus – parte II

sentei na cama pra te ver dormir. decorei teus traços quase perfeitos, os lábios que eu gosto de beijar. coloquei minha mão no seu peito, você respirava fundo.
eu havia acordado enjoada de uma série de pesadelos criados pela minha mente perturbada. fui ao banheiro, lavei o rosto, olhei o espelho. me achei bonita com o cabelo liso caindo numa franja gigante cobrindo meu rosto. queria estar fisicamente disposta pra poder me sentir sexy às dez horas da manhã. impossível. mas mesmo assim abri a porta e vi meu corpo no espelho grande. o que havia acontecido? em pouco tempo eu ganhei formas femininas que com certeza não estavam lá um ano atrás.
voltei pra você enquanto tremia de frio, e estava intacto na mesma posição… quase perfeito. tão perto e tão distante. resmungou uma coisa qualquer e apertou os olhos, me perguntei o que você estaria sonhando. decidi que nao queria saber e me peguei por alguns minutos te observando, tentando entender de onde saía isso tudo dentro de mim, essa corrente elétrica que passa pelo meu corpo quando você me olha mesmo distante. essa coisa que me faz parar de prestar atenção no que você está falando e ficar hipnotizada nos teus olhos. não achei explicação.
coloquei as mãos geladas nas tuas e me encaixei no teu corpo. já fazia uma hora que eu estava acordada e meu corpo pedia arrego, querendo descansar. você se mexeu pra se confortar em mim e colocou o pé no meu pé gelado. senti o corpo esquentar e adormeci num sono sem sonhos ou pesadelos.

*

toda vez que eu vou embora, sorrio pelo caminho. e toda vez que vou embora, eu penso que pode ser a última vez que faço esse percurso. não espero que você se derreta todos os dias. não espero nada além do carinho momentâneo. é um escudo invisível. mordo os lábios sentindo ainda o gosto e o toque do seu beijo que já ficou no passado. toda vez que eu vou embora eu murmuro um adeus baixinho quando ouço a porta fechar e me permito um segundo de sofrimento calado. me permito ser tua por um instante pra depois não ser mais. agora que eu sou das ruas, eu sou muito minha, pra poder ser fortaleza quando te ver de novo, e te sentir escalando minhas pernas àvido por algo que eu não sei o quê.

*

eu não quero saber o que nos guarda. não quero pensar no futuro ou fazer planos. estar ali me fez querer ter só a delícia do momento e eu compreendi que só assim se é feliz. não quero saber o que a vida vai me aprontar daqui a um segundo.
essa mesma vida é curta demais.
já não me interessa.

não somos nós.

não é por você
que minha vida pára,
não são teus olhos
me cegando na madrugada,
não pense que é teu ar
que na noite me falta,
não somos um nó,
nós não somos nada.

dentro de mim há
um milhão de monstros.
há uma sombra, uma nuvem
de chuva e relâmpagos.
dentro de mim há algo
me puxando pra baixo.

não é o verde dos teus olhos
que reflete nas lágrimas,
nem teus acordes
ecoando em minha alma.
não são tuas palavras.

tem toda a escuridão
que te escondo,
e de todos os sonhos
que te protejo,
todos gritos
que eu nunca dei,
todos os beijos
que te calei.

apenas não fale nada.
esteja aqui
e não fale nada.

fadas.

quis pegar teu rosto, olhar nos seus olhos
te fazer entender o que ninguém mais vê;
quis quebrar o mundo em milhões de pedaços
pra poder remontá-lo como eu quiser.
eu andei solitária por um caminho àrduo
pra chegar até você.

pés nus pelo fogo e braços no alto –
brinquei de ciranda nesse perigo só meu.

asas de vidro e olhos cheios de lágrimas
na menor falha vem a desfalecer.

e então você vai embora por um rabo de saia
qualquer outra fada que te faça bem
e alguns segundos de olhos fechados
valerão mais do que as noites vazias
que eu passei velando seu sono
quilômetros além.