contos de adeus – parte I

por daniellecruz

enquanto o vento frio me cortava o rosto e o céu azul parecia quase um insulto, observei os rostos cheios de vida daquelas pessoas, não muito mais novas que eu, que sorriam uns pros outros embriagados pelo sono. puxei o capuz para esconder meu mau humor e passar desapercebida e estar com os braços cobertos era de grande ajuda nesse momento. atravessei todo o pátio até chegar aonde queria, fiz o que tinha que fazer e corri à biblioteca.
toda aquela juventude me dava náuseas, então fiz o possível para fazer o que tinha que fazer o mais rápido possível e conseguir pegar o ônibus que passava absurdamente sem atrasos às onze e quarenta e cinco.
já sentada, vendo a cidade passar por mim, observei os prédios com sacadinhas e crianças brincando em playgrounds – a concretização da vida perfeita diante dos meus olhos. o ar estava gelado e era difícil respirar.
saltei do ônibus com os livros nos braços, a mochila nas costas. senti a dor.

eu estava morrendo.
cada dia um pouco. e nada que eu fizesse poderia mudar isso.

decidi dias antes que morrer era um problema só meu e ninguém mais havia de se preocupar com isso. eu iria só como um barco no mar de tempestade. ninguém merecia sofrer mais do que o necessário com a minha ida. não existe motivo para o alarde uma vez que nós todos iremos para o mesmo lugar, afinal.
escolhi viver a vida como se não soubesse. escondendo um segredo de mim mesma até que chegasse o dia.

andei até minha casa sem conhecer direito aquelas ruas à luz da tarde nublada. me senti em território estrangeiro. as pessoas me olhavam como se soubessem do que eu tanto guardava. há culpa em meu rosto, é fato, ou talvez seja só o frio. achei que a brisa gélida poderia ser motivo para se olhar alguém nos olhos, uma compaixão desnecessária.

não havia mais nada a ser dito.
eu era uma bomba-relógio.

Anúncios