proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: junho, 2009

rosa.

nas palmas daquelas mãos, fui flor.
botão de rosa ainda sem cor
que desabrochou no orvalho
e na brisa gelada que ficou
quando a solidão finalmente tomou seu lugar.

então brilhei vermelha, viva
cor de sangue por dias de sol a fio
sorridente
e cheia de espinhos.

beleza imaculada, a rosa no alto
que ninguém se atrevia a tocar
pois sangrava da minha própria cor
qualquer palma que se aproximasse.

e veio o inverno.
os dias de geleira amorteceram minhas pétalas,
murcharam meus espinhos.

e sem o brilho de um sol qualquer,
sem uma cúpula, uma estufa, um lugar quente
sem um porto seguro
fui perdendo a cor, a vida, a alegria de simplesmente ser.

eu era púrpura e fria,
gélida e oca.
havia me esquecido o que era amar.
e sem a lembrança da primavera já distante,
me perdi.

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gosto.

gosto de mergulhar nos teus oceanos,
de encostar minha barriga em teu corpo quente,
e observar teus olhos inquietos enquanto você assiste tv, distraído.

gosto de ver que você sorri dormindo,
as pernas enroscadas, o suor se fundindo,
a mão macia traçando padrões na minha pele.

gosto da cor dos teus olhos, que me fascinam,
dos beijos molhados e urgentes,
do abraço apertado,
de estar no teu colo.

gosto de sentir esse medo,
da saudade imediata,
de olhar pra trás enquanto você sobe as escadas ao longe.

gosto de não ter certeza do amanhã,
de esperar o mais breve sinal de carinho,
de te ver rindo como criança.

gosto de gostar desse sentimento morno me adormecendo o peito,
acordando algo que eu já não sentia há tempos.

gosto do teu gosto, do teu cheiro,
e do teu corpo no meu corpo
me formigando por inteiro.

bonito

fechei os olhos enquanto você corria as mãos pelas minhas costas
e tentei memorizar teu cheiro
teu beijo que desde o primeiro tinha sabor de despedida
de fruta roubada
de dor iminente

passei os dedos pelo teu rosto, teus cabelos
tuas texturas ficaram gravadas em minhas mãos
e de cada centímetro teu que partilhei
não consigo me desvencilhar

a memória dos teus olhos
claros e tristes
oceanos profundos
ondas violentas

teu beijo urgente, os lábios mornos
tuas mãos me segurando como quem cai de um precipício
nosso amor breve e intenso
e nós dois éramos um só nó

nossa vida cabe em um dos lados de uma ampulheta.

contos de adeus – parte I

enquanto o vento frio me cortava o rosto e o céu azul parecia quase um insulto, observei os rostos cheios de vida daquelas pessoas, não muito mais novas que eu, que sorriam uns pros outros embriagados pelo sono. puxei o capuz para esconder meu mau humor e passar desapercebida e estar com os braços cobertos era de grande ajuda nesse momento. atravessei todo o pátio até chegar aonde queria, fiz o que tinha que fazer e corri à biblioteca.
toda aquela juventude me dava náuseas, então fiz o possível para fazer o que tinha que fazer o mais rápido possível e conseguir pegar o ônibus que passava absurdamente sem atrasos às onze e quarenta e cinco.
já sentada, vendo a cidade passar por mim, observei os prédios com sacadinhas e crianças brincando em playgrounds – a concretização da vida perfeita diante dos meus olhos. o ar estava gelado e era difícil respirar.
saltei do ônibus com os livros nos braços, a mochila nas costas. senti a dor.

eu estava morrendo.
cada dia um pouco. e nada que eu fizesse poderia mudar isso.

decidi dias antes que morrer era um problema só meu e ninguém mais havia de se preocupar com isso. eu iria só como um barco no mar de tempestade. ninguém merecia sofrer mais do que o necessário com a minha ida. não existe motivo para o alarde uma vez que nós todos iremos para o mesmo lugar, afinal.
escolhi viver a vida como se não soubesse. escondendo um segredo de mim mesma até que chegasse o dia.

andei até minha casa sem conhecer direito aquelas ruas à luz da tarde nublada. me senti em território estrangeiro. as pessoas me olhavam como se soubessem do que eu tanto guardava. há culpa em meu rosto, é fato, ou talvez seja só o frio. achei que a brisa gélida poderia ser motivo para se olhar alguém nos olhos, uma compaixão desnecessária.

não havia mais nada a ser dito.
eu era uma bomba-relógio.