o que eu não tenho coragem de te dizer:

por daniellecruz

estar com ele é fácil. ele não faz muitas perguntas, não quer saber da onde venho ou aonde dói. apenas está lá, assistindo futebol e falando uma besteira qualquer pra me fazer rir. tentando chegar a um consenso sobre times e gêneros musicais, mesmo sabendo que nunca vai dar em lugar nenhum porque nós simplesmente não temos muitas coisas em comum. ele não pergunta se estou triste. nunca perguntou. ele não pergunta da minha essência, não quer saber porque eu sou assim. quando contei pra ele sobre meus pesadelos e o motivo dos remédios para dormir, ele me fez rir e eu acabei achando meu problema todo uma grande besteira. não massageou meu ego dizendo que eu não tinha motivo nenhum pra ser tão insegura nem fica falando que eu sou bonita, ou coisa do tipo. ele me fez rir. assim como me faz rir do mau humor que eu fico quando sinto sono ou da minha memória de peixe. é como se nós nos conhecessemos há séculos e ao mesmo tempo, não nos conhecessemos nem um pouco. é raso e leve como deve ser.

ele é uma piscina num dia de calor, e a àgua bate bem nos meus ombros. é o suficiente pra me refrescar e eu não preciso fazer esforço – apenas fico lá, boiando, mergulhando, voltando a superfície com a certeza de que meus dois pés estarão no chão quando eu quiser, numa altura segura, sem precisar ter medo de me afogar.
quando eu olho em seus olhos eu só penso que queria que a vida fosse sempre assim. rir dos nossos problemas e depois dormir de conchinha. ter todas as piadas internas do mundo quando nós nos conhecíamos não tinha nem 24 horas.

prazer efêmero esse, o de se apaixonar. é como sentir prazer na força que se faz ao pressionar o buril contra a madeira ao fazer uma gravura. assim que você estiver gravado em mim, eu vou sentir falta desse prazer e o que eu sinto será um caminho sem volta – porque quando a gente gosta de alguém nunca pode ser só alegria. o amor dói e isso é uma constante. amor tem que doer.

o amor tem que doer.
como uma tatuagem.
o amor é uma tatuagem, uma gravura na carne.
tem que doer como uma cólica incessante, queimar como um fogo inevitável, cicatrizar lentamente como uma ferida e deixar uma marca que não desaparece nunca.

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