proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: julho, 2008

quando eu choro
eu me inundo,
me afogo
àgua e sal.

minhas lágrimas –
cristais verdes,
chuva fina
no vitral.

e o meu rosto
sempre úmido,
de tão quente
infernal.

quando eu choro
lavo a alma
te levo embora
ponho pra fora
todas as dores
os tapas
os gritos
as palavras duras

e aí eu durmo um sono quentinho
aconchegada na minha tristeza
livre de você
e de mim.

oração

meu deus, queria eu
que teus beijos fossem meus
e que o suor nesse meu corpo
fosse metade teu

fiz uma reza, acendi uma vela
benzi tua foto com uma lágrima
que só chora quem ama demais
então pedi

que o pesadelo na madrugada
seja curado com beijos doces
acordar, te ver dormir
dizer poesia no teu ouvido
baixinho, baixinho

que não haja mais comprimidos
nem saliva gasta com palavras
as quais não quero falar

que haja só você nos meus olhos
teu cheiro na minha roupa
teu corpo no meu corpo

que haja só essa paz murmurante
os fogos artifícios da alma
e esse nervosismo doce que vai dar
toda vez que eu acordar
te ver dormir
e sonhar.

carta.

meu amor,
ontem o dia amanheceu vazio,
(você reparou?)
os carros na rua iam silenciosos
as pessoas não gritavam
não haviam obras nos prédios
os camelôs estavam de luto
não me pediram esmola.

ontem o dia amanheceu cinzento,
com cara de segunda-feira.
fazia frio.
nada me apetecia.

ontem eu não tive fome,
tive uma urgência dormente na boca do estômago
aquele silêncio tomando conta do mundo
e de mim.

ontem lhe disse adeus
e olhei pra trás enquanto você partia.
então a cidade se tornou essa explosão surda
esse grito sufocado
te pedindo pra ficar.