Galáxia.

por daniellecruz

Ela era uma brisa leve quando o dia amanhecia. Seu sorriso doce, a voz de menina, não condiziam com o corpo de mulher escondido por baixo daquelas roupas largas. Sua educação rígida a obrigara a se esconder do mundo. Era concha, fruto do mar, dia de sol.

Apenas eu a via como realmente era. Olhava em seus olhos e dentro deles dava voltas ao mundo. Suas palavras tristes faladas baixinho no meu ouvido. Estou tão triste, ela dizia, tão triste que posso morrer. Acariciava-lhe os cabelos e beijava-lhe os lábios com gosto de fruta
madura, para então molhar meu rosto com suas lágrimas sempre, sempre presentes. Seus dedos gelados, aquelas pequeninas mãos frias tocando minha cintura, me preenchiam com uma agonia oceânica. Ela era um vento gelado de inverno na nuca dos desabrigados.

Deitava nua na minha cama, alva, eu contava as pintas de seu corpo uma a uma como estrelas no céu. Ela era uma constelação no meu universo pessoal. Copo de leite, flor de baunilha. As pontas dos meus dedos percorriam seus poros, arrepiavam seus pêlos ralos, até se encontrarem
com seu sexo frágil, úmido, pulsante. Estou dormente, ela dizia, tão dormente porque é bom demais. Não se mexia. Ficava ali imóvel, beatificada. Era santa, era um demônio, seus olhos doces, palavras baixas ditas no íntimo.

Suas costas eram longas avenidas que eu acreditava ter nascido para percorrer. A perfeita linha da coluna, nenhum desvio ou imperfeição. Eu encostava os lábios na sua nuca, ela sentia minha respiração e inspirava junto comigo. É pra gente ser uma só, justificava. E éramos. Molhava-lhe as costas com meus beijos mornos, via sua pele se arrepiar como os pêlos de uma gata no cio – mas sempre tão sutil em seus sinais.

Me afundava em seu corpo, seu gosto agridoce, mordia-lhe as partes. Ela segurava minha mão bem firme como a amante que diz: eu nunca vou te abandonar. Seus gritos, sussurros, gemidos, se tornavam parte de mim e com meu corpo em seu corpo ela explodia em alegria. Supernova,
corpo celeste remanescente do brilho que já não está lá. Satélite.
Fazíamos amor porque éramos amor.

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