proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: dezembro, 2007

Grita.

Eram duas negras gêmeas
Na última casa da vila
No sobrado branco mais antigo
Coberto de telhas quebradas.

Ciranda sempre de branco
Jussara de rendas vermelhas
Dançavam num ritmo estranho
Gargalhadas que ecoavam.

Enquanto Ciranda se fazia
Jussara já se entregava
De noite era pomba-gira
De dia era esculacho.

Um dia as duas descalças
Gritando e levantando a saia
Sangravam como o diabo
E achavam naquilo toda a graça.

Assim Deus pôs fim às suas vidas
Como uma macumba que deu errado
Jussara havia arrancado as ligas
e Ciranda seus pulsos cortado.

Eram bruxas e feiticeiras
Eram mulheres desejadas
Eram as duas partes do meu ego
Meus exus estilhaçados.

meus ensaios sobre a cegueira.

eu não vi os nomes de ruas, as placas de trânsito
não vi os olhares, me observando curiosos
não vi as unhas por fazer, o cabelo bagunçado
não li o que estava escrito nos muros pixados

é que hoje não tem poesia, tem desabafo.
tenho alguns graus de miopia e uns poucos trocados
guardei os óculos pra não ver esse mundo desesperado

fechei os olhos e quis dormir
e quando sua respiração se tornou uma canção de ninar arritmada
o escuro embalou meus sonhos silenciosos

saudade.

tenho dormido no canto da cama
esperando o abraço cansado
pesando teu corpo sobre meus frágeis braços

essa noite nenhuma palavra foi dita
e nessa cadeira na qual fui esquecida
procurei um nome qualquer que fosse familiar

lá fora o vento não uiva – lamenta
murmura saudades no meu ouvido
dá tapas ardidos nos meus lábios falecidos

tuas palavras se tornaram lacunas
não deixastes teu cheiro em meus travesseiros
nem palavras de amor
nem promessas
nem adeus.