proa e vela

cada suspiro é uma remada

Mês: setembro, 2007

vácuo.

acontece que simplesmente não há nada a ser dito
meus sentimentos, meu amor, são um saco vazio
sem propósito, sem futuro
atrapalhando meus passos
dados em falso
na escuridão

acontece que o mundo deu uma volta comprida
e agora em meus olhos se vê uma vida perdida
sem parâmetros, sem ternura
distribuindo sorrisos
verdades ardidas
sobre o que sou.

esse amor é um amor injusto, traiçoeiro
me consome e esmaga o peito
parasita.

auto retrato

sou eu
esse precipício
essa dor aguda
essa carne crua.

sou eu
do fim ao início
sou milhões de agulhas
no teu corpo nu.

sou eu
desmoronando idéias
despedaçando cartas
sobre o que já fui.

agora.

quando o peito arde
eu não posso impedir meus olhos de choverem
meus sentimentos de trovejarem
o sangue de ferver
borbulhante
traiçoeiro.

quando o peito explode
eu não posso impedir meus olhos de sangrarem
meus instintos de te odiarem
a lágrima de escorrer
incessante
o dia inteiro.

não tenho paciência
tenho a urgência de um amor inacabado
dos beijos que não foram dados, da vida correndo pelos olhos

eu tenho a ansiedade das lágrimas nos lábios.

não tenho calma
tenho a raiva crua dos apaixonados
a mágoa gratuita de quem espera sem saber.

eu tenho um mundo inteiro nas costas.

não tenho vida
eu tenho a morte lenta de quem se entregou sem olhar pros lados
o gosto amargo da saudade, e a doçura enjoativa da impossibilidade

eu tenho tudo o que eu deixei pra trás pra poder flutuar
tenho o crepúsculo alaranjado
o vento no rosto
o tapa na cara
e tenho a coragem de quem já sabe o que é perder.

(escrito em 2006)