meias negras.

por daniellecruz

sentou na cama e abriu a mala
tirou de dentro um par de meias finas
e ligas, pretas.
ela o olhava nos olhos enquanto se vestia
numa tentativa muito banal de que houvesse ali
alguma sensualidade
ele não a olhou nos olhos
pois não conseguia desviar o olhar
do par de meias negras
com rendas, e ligas
que ela vestia devagar.

puxou as suas pernas e sentia o seu cheiro
ela sorria, sem saber
que ele sentia os cheiros da amada morta
que outrora vestias as meias
negras, com rendas
e ligas.

lambia seus joelhos como se fossem
os frágeis joelhos da amada morta
fechava os olhos pra que não houvesse
nada além dos dois ali:

ele
e a amada
morta.

evitou olhá-la no rosto enquanto a possuía
pois a dama que ele via era a amada de outrora
a amada já fria
cujo coração já não batia
nem com o mais fraco dos pulsares.
derramou uma ou duas lágrimas,
não lhe puxou os cabelos
[a amada morta não tinha cabelos compridos]
não fez nada.

levantou da cama e despiu as meias das pernas
brancas, com rendas
e ligas.
as segurou inteiras em suas mãos
num gesto de despedida
e voltou pra casa,
onde agora podia dormir
pois teve um último cheiro
um último desejo
pela amada da qual não pôde se despedir.

agora no mundo
era somente ele e a amada
as meias negras, com rendas
e ligas;
e a amada morta.

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