proa e vela

cada suspiro é uma remada

Hoje eu acordei e joguei fora as flores mortas. Abri a janela e deixei entrar o ar quente que cheirava a tédio de um dia nublado. Observei a vida desinteressante de quem caminhava lá embaixo. 

Fito a porta alguns segundos, só pra ver se você passa. Minhas paredes silenciosamente gritam seu nome, um eco de todas as noites em que não havia nada além do seu corpo, do meu corpo, e da gota de suor fazendo cócegas nas minhas costas. 

Troquei os lençóis e joguei água na cara. Os sinais da sua presença estão em toda parte do meu quarto. Nas fotos, nos bilhetes, nas marcas da minha carne. Na minha cabeça inquieta revivendo o que você deixou pra trás.

Contei mais uma vez quantos dias faltam. Ensaiei, planejei, todas as coisas que não faremos. Quando você está perto, eu esqueço todo o resto. Quando você me beija, eu não sei de mais nada.

Hoje eu acordei e exorcizei uns três fantasmas. O da ausência, da saudade, e do tempo que não passa. 

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O álbum de retratos.

Abriu o álbum de retratos pra se lembrar dos dias em que foram felizes sentados ali mesmo naquele sofá azul celeste, comprado com tanto esforço numa tarde quente. Os sorrisos nas fotos pareciam pinturas que retratavam dias que nunca haviam acontecido. Dias que passavam à cento e cinquenta quilômetros por hora, porque a felicidade é uma turbina, e tudo o que sentia naquela época fazia a vida passar tão rápido que nem percebeu quando acabou. Agora era só tristeza, e a tristeza é lenta, devagar como um filme em slow motion, daqueles que fazem sentir até enjoo e aflição, e quando percebe está com as pernas batendo desritmadas, culpa da vontade que acabe logo pra saber o que vai acontecer.

Aquelas fotos eram as provas necessárias pra ter a certeza de que um dia esteve viva, pois já não fazia a menor ideia se toda a sua existência havia sido uma ilusão ou se estava apenas presa em um limbo entre o inferno e a terra. Porque sim, havia vivido demais e muito intensamente, e com isso o céu nunca havia sido uma opção. E para ela estava tudo bem, pois viveu com amor, com a paixão dos desesperados, e isso fazia tudo valer a pena até o dia em que acabou.

O dia em que acabou foi como se fosse a morte, uma remoção cirúrgica e sem anestesia de seu estômago. ‘O amor fica na barriga’, sempre disse, pois é ali que fervia quando sentia ciúmes, era ali que tremia quando ficava feliz, era seu abdome o dono de todas as contrações das centenas de orgasmos que jurava ter tido. Mas agora, sentada no sofá em que fizeram sexo e amor, com o álbum de retratos que montou como um presente que nunca foi e nem seria entregue, já não sabia se tudo algum dia tinha sido verdade. Se os beijos, as palavras, os orgasmos e até mesmo o dia em que tudo acabou realmente haviam acontecido ou eram parte de um pesadelo doente que nunca parecia ter fim.

Estava vazia, e o buraco onde que antes se encontrava seu estômago latejava ardente, um espaço vazio gritante.

Sabia que sempre teria aquelas fotos. Procurou uma superfície reflexiva para reconhecer seu rosto, já que havia quebrado todos os espelhos da casa, e agora não lembrava mais se aquela mulher sorridente era a mesma que ali se encontrava.

Sentada. No sofá azul celeste. Sua cor favorita. Com um álbum de retratos. 

Anônima.

Era ela.

Tão bonita que desci no ponto errado.
Andei meia quadra em passos desordenados.
Olhei pra trás pra me despedir da visão
dos seus olhos verdes que me encaravam do outro lado.

Voltou.
Me fez perder o sentido com um beijo molhado,
Segurou na minha mão como quem vai ficar,
sorriu
e foi embora sem olhar pra trás.

Não me restou nada quando Ciça me deixou.

Não me restou nada quando Ciça foi embora levando seu amor cru e incompleto. Não me restou a companhia no café da manhã e nem os suspiros de bom dia. Não me restou nenhum plano ou meta de vida. Levou consigo meu humor sarcástico e a risada leve. A vontade de estar um passo à frente. Quando Ciça me deixou, o universo inteiro ganhou um tom esverdeado e nauseante. As ruas me engoliam como num pesadelo absurdo. Qualquer esquina por onde passamos fazia parte de um delírio surreal. Ela nunca esteve ali, eu dizia em voz alta e assustava transeuntes desavisados da minha condição. Ela nunca esteve ali.

Não me restou nada do amor de Ciça que hoje jaz a sete palmos de terra fria e calculada onde não nascem flores, e o mato só é propício às ervas daninhas que se espalham como chagas sangrentas em todas as memórias felizes que um dia criamos juntos. Todas as memórias felizes que hoje apenas eu  carrego solitário, pois Ciça está morta em tantos sentidos da palavra que nem o mais capacitado filósofo teria coragem de dizer que ela está viva em algum lugar.

Descanse em paz.

um passo adiante.

a cada coração partido um passo adiante
quando percebi, tinha ido longe demais
o mais-que-perfeito indicativo composto
que trazia o gosto do que não volta mais

conjuguei os teus verbos em minha memória
pra entender a história do seu partir
pedi pra não ir, mas era meu passo à frente
contra tua corrente que deságua no cais

já percorri quilômetros vazios no mundo
e por quase um segundo pensei me encontrar
ancorada num porto do mar mais tranquilo
mas quebrei o sigilo do teu jeito de amar.

“um passo adiante,
dois passos pra trás” – você me disse
“é só assim que se chega a algum lugar”.

Meninas de dezembro

As meninas de dezembro
sentadas nos bares,
nas mesas da calçada.

Cada brisa derradeira
me dá mais uma ideia errada.

Secando o suor dos seios
com os decotes de seus vestidos
estampados e veranicos,
e comprimentos perfeitos.

As meninas de dezembro
e seus desejos de verão:
mais uma cerveja gelada
e um amor pra dizer não.

quero decorar cada milímetro da sua pele
em minha memória tátil,
e como se fosse fácil
te ler em braile.

me alimentar do gosto doce das tuas costas
da malícia em tua boca
pra que você sempre me ouça
perder os sentidos.

presente.

quando eu soube que doeu em você
não sabia que encontraria as mesmas sombras vis,
que teu peito sangrou, e o meu ferveu
que todos aqueles dias separavam por milímetros
as mesmas chagas, as mesmas feridas
as mesmas formas de querer desistir.

quando eu te vi, foi como se fosse a primeira vez
e uma atração estranha entre nossos dedos
cismava em vibrar em cada parte da minha tez
e eu te quis, mais do que tudo te quis
quebrado por dentro, assim como eu

um pedaço de mim era triste
e o outro era teu.

eu te beijei e então entendi
que tudo o que havia doído,
fervido,
sangrado
me levou até ali.

Se eu segurar teu rosto e me deixar hipnotizar vendo o reflexo em seus olhos
você me espera?
E se eu sentir o cheiro do teu pescoço e prender tua cabeça entre minhas pernas
você esquece ela?
Se eu disser que não penso em você nem um minuto
você fica mais um pouco?

esse quase amor ainda te deixa louco, ela disse.

esse quase amor ainda me deixa louco.

Epitáfio

Das poucas coisas que levei da gente, uma delas foi a paixão por cozinhar. A coragem pra colocar a mão na carne, misturar os temperos, esquecer da receita e tentar novas alquimias nas panelas. Afora isso, não restou muita coisa. Depois de batalhas demais e uma guerra perdida, os escombros do que deveríamos ter sido foram reduzidos ao pó. Não restou amor, a mão na perna, o beijo de boa noite. Já perto do fim, com soldados exaustos demais para trocarem palavras, fez-se o silêncio.

Não éramos nada. 

Aprendi a perdoar. Descobri que precisava respirar fundo e deixar passar. Só que tantas vezes te disse que o amor é uma gangorra em que não dá pra brincar sozinho. Você preferiu outras formas de se divertir, com outras pessoas jogando teus jogos. E se foi.

E eu me fui de você.

Você me disse que eu só poderia escrever se estivesse triste. Fiquei sabendo que não é verdade. Que ver uma pessoa sorrindo pra gente com vontade, olhando no olho, é a maior inspiração que alguém pode ter. Maior que a angústia, que a solidão e o desespero. O coração cresce, fica gigante, e meus dedos inquietos. Pra não atropelar os momentos, escrevo. Tenho escrito todos os dias. Me perdoe, mas peguei de volta sem avisar todas as palavras que você me roubou. 

Aqui jaz um amor ausente. Sua falta não será sentida, pois me acostumei com o vazio. Tenho um coração livre e uma cabeça cheia de ideias. Não me reconheço. Vejo nossas fotos e não me reconheço.

Que aonde estiver, seja feliz.

Descanse em paz.