segredos.

06/11/2009

hoje, só hoje, eu queria te entender.
decifrar teus gemidos,
compreender teus mistérios,
desenhar no corpo estendido
todos os beijos que não eram pra ser,
tudo aquilo que não sei dizer
e que, sem querer, fica subentendido.

entrar nos teus sonhos,
dominar os teus mundos,
escutar teus segredos.

quando eu saio pela rua os meus passos não tem ritmo na calçada desigual. tento me concentrar em não cair no chão mas a cabeça está em outro lugar.

só sei que saí pra te procurar no vento gelado, nos rostos no metrô, lutando com o sentimento contraditório – estava morrendo de medo de te achar, de te ver por aí. só o pensamento fazia minha boca ficar seca, meu coração acelerava, eu ficava tonta. parava por meio segundo e repetia “ele não está lá. ele nunca está lá” e a dor pungente me trazia de volta à uma realidade quase que maldita. você não estava lá. então me refugiei no único lugar que eu tive certeza que você não estaria.

mas te procurei nos títulos, nas páginas, entre as prateleiras. nos cheiros das páginas novas, recém impressas, nas palavras sem sentido lidas rapidamente. nos assuntos que você poderia gostar. me perguntei que livro eu te daria quando chegassem as festas de fim de ano, sem querer pensar se até lá você ainda vai se lembrar ao menos do meu nome. escolhi poemas a dedo, humores e ironias, até reconheci teus traços em frases aleatórias – existe ordem no caos, não tenho culpa que a vida seja como é, e por onde, por onde você anda? – vi capas da cor dos teus olhos, e no fim eu sabia qual seria teu livro perfeito. aquele que você vai ler e pensar em mim todas as vezes que o sono tomar conta, ou a pressa cotidiana te levar. você vai pensar aonde eu te achei ali. você vai pensar em mim. e no verso da capa, numa dedicatória cheia de duplos e triplos sentidos, eu estarei lá.

eu sempre estarei lá.

além do céu

05/10/2009

se Deus existe? Não saberia dizer.
a divindade pra mim está no teu sorriso,
nos reflexos dos teus olhos,
no colo quente.
essa excitação doente.

em cada palavra, a voz lentamente sussurada,
tua respiração descompassada.
teu corpo dominando o meu
naqueles longos segundos de dormência inevitável.

além do céu,
da vida,
de tudo.

Deus é fazer amor.
Deus é isso.

29/09/2009

te digo: a felicidade não é poética. as rimas moram nas lágrimas, em sobrados feitos de madeira já desgastada pelo tempo.
e hoje, justo hoje, nesse dia de garoa e ventos frios, eu quis escrever sobre tudo aquilo que brilha. sobre o sol, o sal do mar, o teu sorriso quente. tuas mãos deslizando suavemente pelos meus braços, segurando meu cabelo com firmeza. sobre nossas conversas, sua voz falando besteiras, sussurando em meus ouvidos, a respiração ofegante.
hoje eu tive um desejo àvido de ser feliz em teus braços. de suspirar baixinho toda a alegria que não cabe em mim quando teus olhos ficam fixos nos meus, quando eu me esqueço de tudo.

tive que apelar pra prosa pra te dizer o quanto te quero.

sinestésica

24/09/2009

Fechou o portão de ferro com as mãos tremendo de ansiedade, enquanto já se colocava na direção dos passos longos e rápidos. Quase corria com um meio sorriso ao rosto, um pouco pirata, um tanto criança. Sentiu o coração bater mais forte, bem forte, tão forte que te deu tontura – o que há de ser de mim, pensou, se agora eu sou tanto amor? Em dois segundos sentiu o medo, o pavor, as lágrimas entaladas. Lembrou-se dos beijos e dos cheiros, e se reconfortou. O ônibus havia chegado.

Em pé na esquina ela dançava de um lado pro outro, cantando uma melodia imaginária no seu fone de ouvido imaginário. Sabia que a observavam com curiosidade, às vezes espanto, às vezes admiração, mas ela não se importava. Era apenas mais uma de suas artimanhas para que os segundos passassem mais rápido. E passaram. Quando se virou o viu, lá longe, e quis vomitar. Não sabia explicar e nem queria tentar, mas essa ânsia era de alegria – queria vomitar de tão feliz que ficava quando ele estava por perto. Continuou cantando, dançando, dando pequeníssimos passos e saltos pra lá e pra cá porque esses poucos segundos – e agora seriam menos de dez – em que ele vinha em sua direção eram uma câmera lenta insuportável. Chega logo, venha logo, me beija logo, ela pensava. Não cabia em si.

Fechou os olhos pra se despedir. Beijou com carinho os lábios macios e suspirou, apertando o dedo indicador. Olhou aqueles olhos – tão claros, tão lindos, tão brilhantes e tão vazios – pela última vez e sentiu a escuridão tomar conta dos dedos dos pés. Enquanto o trem não chegava, se via no reflexo do outdoor e pensava aonde exatamente iria a peça que faltava, o que é que ela não tinha, o que não sabia fazer. Sentiu um buraco. Ela era incompleta. Era, como sempre havia sido, uma boneca de porcelana. Uma boneca quebrada. Desejou mais do que tudo ser inteira, perfeita, única, sabores e cheiros. Sinestésica.

Encostou a cabeça na janela e deixou que as lágrimas escorressem tímidas, lavando a dor dos últimos dias, a dor latente, que gritava enquanto ele tapava os ouvidos e a silenciava com beijos urgentes, escondendo o rosto em seus ombros, seu pescoço.
Por fim, agora sozinha, desistiu. Não havia para onde correr.
Era solitária,
e era toda torpor.

23/09/2009

não quero mendigar teu amor vadio.
quero sim que me queiras
com urgência e febre.
que teus poros clamem meu corpo,
que tua mente lhe mantenha desperto.

quero tudo que não será recíproco.
quero tua lingua quente em minha pele,
tuas mãos desbravando os milimetros,
tuas palavras invadindo os ouvidos.

Então sem saber eu serei tua,
quando se tornar impossível viver sem teus cheiros,
sem teus abandonos e teus beijos violentos,
sem tudo o que não há.

momentos.

06/09/2009

fui feliz naquela manhã de outono
em que acordei com o rosto entre teus cabelos
enroscando as pernas nas tuas
que cismavam em fugir
do meu enrosco desordenado.

fui feliz quando percebia tuas manias
e nos compreendíamos em nossas loucuras.
quando ríamos como crianças
das teorias sem sentidos.
gargalhadas no vazio,
beijos tímidos,
nossos dedos entrelaçados.

‘imagine, apenas imagine,
se esse ponto aqui fosse o mundo inteiro,
numa metáfora da nossa vida
se desintegrando aos poucos
até desaparecer por completo.’

só fui feliz quando amei.

depois de você
minha cama de solteiro
é um oceano vasto.
e todo esse espaço
é a espera do teu abraço,
do teu nariz em minha nuca,
tua respiração calma
e profunda.

depois de você
os dias não passam.
meu corpo não responde,
minha voz já não fala,
minha alma não cala,
minhas lágrimas não secam.
meu sorriso te espera
tão triste.

a febre domina
a pele sensível,
branca e solitária,
em sonhos sem sentido

o vermelho sangue,
a dor é contínua.
tua ausência é um buraco
que hoje me domina.
precipício negro,
teus olhos,
teus beijos.

30/08/2009

eu sou feita de pequenos pedaços de saudades. de fotografias, memórias, dos refrões que me lembram amores do passado. do desejo de uma melodia que me lembre um amor futuro, eterno, intenso.
sou feita de arco-íris, facetas de um diamante ao sol. de desejos, pedidos. de sonhos perdidos. de tudo que poderia ter sido e não foi. das esperanças, do amor inabalável, incondicional. dos beijos não dados, das corridas na chuva, do banho quente, do cobertor.
eu sou feita daqueles dez segundos que nós passamos esfregando os pés antes de dormir.
sou feita de sexo despudorado, do suspiro, do gemido. da química. dos pequenos crimes cometidos sem pensar.
sou feita dos altos e baixos, dos picos de humor, das manias, dos gritos, das lágrimas, dos sorrisos, gargalhadas. sou feita da escuridão e dos raios de sol. da tempestade… e da calmaria.
sou feita de mim, e de você. dos teus olhos, do meu tato. dos teus lábios e do meu mel. do teu gosto amargo. das despedidas.

catarse.

22/08/2009

me percebi com a mão no teu peito, admirando teus lábios enquanto você dormia. eu não queria dormir. eu queria eternizar aquele segundo, gravá-lo com a câmera da minha memória. os nossos cheiros, os sons do teu corpo, a textura dos teus poros. eu queria decorar cada milésimo de segundo.
eu só conseguia pensar “se apaixone, por favor”. como um mantra se repetindo na minha mente, desejei ser o encaixe perfeito do teu quebra-cabeça. desejei ser a razão de cada vez que você abrisse os olhos em um novo dia. tua musa, tua mulher, completamente em tuas mãos.

gotas de amor. tua rainha por algumas horas, e saber que tudo termina ali todas as vezes que vou embora. teus olhos, tuas mãos nas minhas. teu medo latente de me machucar em todo e qualquer sentido… e esse teu pavor é quase sólido. posso vê-lo, farejá-lo, quase posso tocá-lo.
teus beijos outrora doces têm um sabor amargo, vil.
o gosto de quem não vai ficar pro final.